PSICOPATOLOGIA para além da PÓS-MODERNIDADE*

(Boletim Kairos, Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica, 2015)

Jorge Gravanita

 Como definir  a mudança de paradigma central na pós-modernidade, no fim dos tempo em que vivemos(1)? As grandes narrativas miticas, religiosas, científicas e técnicas trouxeram-nos aqui e agora a um tempo e lugar, não de interrogação entre as certezas dogmáticas e as dúvidas e inquietações metafisicas e metapsicológicas mas à necessidade de conceptualizar o modo de constituição de um novo sujeito para um novo tempo. Somos hoje confrontados com novas formas de expressão psicopatológica que decorrem das atuais modalidades como o sujeito se constitui no aqui e agora num mundo globalizado economicamente e financeiramente. A ameaça do terror e da guerra, do colapso financeiro ou das alterações climáticas, não conhecem fronteiras. O impacto de acontecimentos distantes no tempo e no espaço é vivido como ameaçador e permanente. As emergências catastróficas tomaram o lugar da rotina anunciando novos "cisnes negros"(2), coisas impensáveis que se banalizam. Também as categorias estruturantes da psicopatologia com que nos habituamos a pensar a expressão sintomática do sujeito parecem já não adequar-se aos dados vindos da clínica. Quando se considera o todo e a parte de uma personalidade, procura-se que corresponda a uma entidade nosológica, para fazer sentido, ou corresponder a uma imagem coerente. No entanto existe nessa correspondência uma falta de sentido que emerge precisamente da não existência dessas entidades metafisicas que explicassem os atos, lapsos e mesmo os sonhos dos nossos novos sujeitos da pós-modernidade. A coerência e previsibilidade da nova psicopatologia não pode existir porque o conflito de onde emerge não decorrem da permanência das estruturas conhecidas, mas precisamente da natureza caótica que lhe subjaz. Nas novas sintomatologias emergentes, com preponderância nos diagnósticos nas crianças, ressaltam as associadas ao espectro do autismo, aos transtornos por défice de atenção e a hiperatividade. Nos adolescentes destacam-se as novas dependências virtuais, as perturbações do comportamento alimentar e a violência na intimidade. Nos adultos a banalização das perturbações da ansiedade e pânico, a fibromialgia o transtorno borderline de personalidade e a síndrome de burnout. A fluidez e transversalidade dos sinais identificadores desses distúrbios, mais do que estabelecer fronteiras entre categorias, permitem a sobreposição parcial destas.

ensamento único e novas formas de dependência.

A noção clássica do conflito implica uma luta entre o desejo e o interdito. A autoridade que sustenta o interdito representa a Lei, o que implica um tempo e um lugar para que a Lei seja efetiva. Sem esse lugar e tempo onde a Lei opera, vive-se uma outra forma de ausência o da escolha da liberdade, isto é o totalitarismo de um certo discurso. O pensamento único decorre da ausência de representação do interdito, não supõe a liberdade, mas que a compulsividade não encontra limites. O sujeito fica assim submetido a uma nova dependência de natureza "neuronal" (3), que impregna-se na própria estrutura de organização cerebral, para além do princípio do prazer. Ao evocar o potencial imediato das emoções mais extremas e paradoxais as novas dependências são da ordem virtual, da aparência, geram insuficiência na capacidade de escolha determinada por uma ordem de valores ético-morais. As novas dependências são vividas no domínio do jogo e do virtual incluindo muitas vezes a componente agressiva ou sexual. A pornografia expõe o paradigma atual de não há limites para a expansão do negócio, de acordo com o princípio de que se vende bem o produto, este é bom.

O sujeito pós-moderno é simultaneamente produtor e consumidor à escala global em tudo está disponível. Crescemos num mundo inundado de ruído, com um processo mental sobrecarregado e acelerado pela tecnologia, dominado pelo excesso de sinais a que temos de dar atenção e simultaneamente ignorar para manter a saúde mental. A exigência social imposta ao homem pós-moderno não é de que ele se refreie, mas que seja hiperprodutivo e que goze do excesso de estimulação sensorial. A Sociedade hipertecnológica e mediatizada hiperbolizam a omnipotência infantil e a ilusão do controle. Poderíamos também falar da emergência da violência entre adolescentes e mesmo em crianças, do bullying com recurso ou não às novas tecnologias. A internet e as redes sociais virtualizam as relações interpessoais, permitindo no anonimato a realização no virtual das fantasias cuja partilha e exposição enfatiza os aspetos exibicionistas e perversos em geral.

A Violência sem nome

 A crise e mal-estar decorrente das novas formas de subjetivação manifestam-se através de passagens ao ato sobre si, ou sobre o outro, sendo que a violência pode ser vista como forma de irrupção deformada do sujeito, cuja dinâmica inconsciente não encontra representação fantasmática no campo psicopatológico. Como pode então se revelar um mal-estar que não pode ser nomeado e tratado clinicamente? Não se escolhe ser um sujeito singular, não se é visível e transparente. A patologia é de algum modo intermediária de uma ocultação, de um encobrimento a revelar. A maior mentira é a da aparência de autenticidade. Hoje não desejamos ser "bons", mas jovens, belos e famosos. Os ecrãs são a janela para o mundo onde se aparece, a possibilidade de exclusão do palco ou dos ecrãs moveis e fixos não implica um sentimento de falta de objeto, mas da imagem de si projetada onde o anonimato das massas da modernidade dá lugar ao protagonismo efémero, bizarro ou singular. Numa sociedade de sucesso, onde se impõe o ideal narcísico da supremacia e o usufruto do gozo, que lugar pode haver para a representação de sentimentos de fundo que estruturam o sujeito e constituem uma identidade ao longo do tempo? A dilatação do presente, sem passado e sem futuro, torna qualquer impacto efémero sem tempo para ser absorvido. O princípio da incerteza levado a novo dogma impõe o gozo imediato, ou o desaparecimento do cenário. A nova sintomatologia da dor na fibromialgia, não é territorial, não se fixa nas fronteiras do conhecido orgânico, ela torna-se rizomática (4) não se enraíza, atravessa as fronteiras das categorias do patológico e da normalidade, como excesso no corpo.

Um novo paradigma em Psicopatologia

A mudança nos paradigmas centrais (6) do teológico até ao técnico, passando pelo humanista e científico implica diversas modalidades de expressão do sofrimento e de busca da cura. Assim da cura pela salvação, passamos pelo iluminismo da razão e do pensamento lógico ao positivismo do económico. O atual paradigma dominado pela técnica tornou aparentemente obsoletos os limites éticos e a psicologia moral deu lugar aos modelos cognitivo-comportamentais, tendo como resultado a busca da maximização dos resultados e o culto do sucesso. Os bens materiais e imateriais e mesmo espirituais como a própria felicidade servem outras formas de exibição, geram fascínio e poder de influência sobre o outro, cuja admiração não tem limites. O lugar do fracasso e da perda está aqui excluído. As relações de afirmação e domínio não dependem assim já dos espaços fechados, familiares, disciplinares e educacionais, mas do modo como se operam as dinâmicas múltiplas e paralelas de um novo espaço-tempo virtual. As novas conquistas são num espaço-tempo virtual onde opera a simultaneidade sobreposta como superfície diáfana de uma identidade imagética fluida. Nessa dinâmica as fragilidades e descontinuidades do sujeito não se restringem ao seu espaço relacional próximo mas este está dependente do olhar e do reflexo da imagem construída nas redes virtuais. O isolamento face à distância emocional, ao desconhecimento do outro impede a que a fala possa ter lugar. Nesse contexto o regresso do sujeito ao espaço fechado do seu mundo fantasmático, da repetição e do trauma levam à depressão, à melancolia e à pulsão suicidária. No mundo sem limites do domínio técnico, sem lei, da equivalência sem sujeito, só o quantificável pode fazer a diferença. Sem reconhecimento autêntico o homem não tem qualquer qualidade. Qual pode ser a verdadeira e nova qualidade do "Homem sem qualidades (7) " que está para além da pós-modernidade? (a continuar no Kairos)

(1) Ver "Viver no Fim dos Tempos" de Slavoj Zizek , Relógio D`Agua, Lisboa( 2011)

(2)Ver " Cisne Negro"  de Nassim Nicholas Taleb, Dom Quixote, Lisboa (2011)

(3)Ver  "A Sociedade do Cansaço de Byung-Chul Han, Relógio d` Agua, Lisboa (2014)

(4)Ver "Mille Plateaux" de Gilles Deleuze e Felix Guattari, Ed Minuit, Paris(1980)

(5)Ver " Les nouveaux blessés", Catherine Malabou, Bayard, Paris(2007)

(6)Ver "O Conceito do Politico" de Carl Schmitt .Ed 70, Lisboa (2015)

(7) referência a "Homem sem qualidades" de Robert Musil , D.Quixote, Lisboa (2